quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Fahrenheit 451, de Ray Bradbury

Então, pessoas, tô devendo aqui minhas anotações sobre vários livros. Vou tentar atualizar aqui aos pouquinhos, começando por esse excelente livro, que li em janeiro do ano passado.


Este é certamente um dos cinco melhores livros que já li. Não que eu tenha lido muitos, e também tenho problemas com classificações, de modo que seria difícil dizer a posição exata dele na minha lista de melhores livros. Mas se esta lista existisse, este livro estaria certamente entre os cinco melhores.

Primeiro pensei no livro de Bradbury como uma declaração de amor aos livros, pois ele assim me foi apresentado e era muito cômodo encaixar a minha apreciação dele à que já me tinha sido feita por um professor da faculdade. Entretanto, lendo e relendo, pensando e repensando, vi que ele é muito mais: é um livro de amor à vida, de uma esperança que, embora utópica, não chega a ser pueril; é antes uma esperança serena num futuro em que os homens descubram, olhando para o passado, o quanto foram tolos ao usar toda a riqueza que foram capazes de criar - conhecimento, cultura, tecnologia - para se autodestruir e, por isso,  ter que se reinventar, várias e várias vezes ao longo da história.

Vamos tentar fazer esse ponto de vista ficar mais claro. Comecemos pelo papel do fogo no romance. Montag, nosso personagem principal, é um bombeiro, mas não no sentido que hoje conhecemos, daquele que apaga incêndios; ele é a espécie de bombeiro que usa o fogo como instrumento de controle, queimando livros. Vejam só a ironia: uma das maiores revoluções tecnológicas da humanidade foi o domínio do fogo. A partir disso, pudemos nos comunicar, cozinhar alimentos, otimizar o transporte, nos guiar na escuridão e um sem fim de descobertas tecnológicas que nos permitiram evoluir tecnologica e culturalmente durante séculos.

A metáfora do fogo queimando livros como um espetáculo - mais ainda que como instrumento de controle das consciências, como várias vezes ocorreu ao longo da história -, é de uma importância crucial para a compreensão do romance. Ela evidencia como a nossa sociedade supervaloriza a tecnologia, que simplifica e agiliza nossas vidas, em detrimento do pensamento, da cultura. Vivemos numa época em que predomina o hedonismo, a busca incessante por prazer e distração ininterruptas, o que as tecnologias tem a oferecer em abundância. Na época em que o livro foi escrito, essas tecnologias eram principalmente a televisão e o rádio, mas hoje podemos incluir aí a internet, a grande revolução na comunicação das últimas décadas. Nesse contexto, o espaço para pensar, refletir sobre a ação, fica extremamente reduzido, de modo que os livros e os seus leitores, os seres pensantes e questionadores, na ficção de Bradbury,  vão se tornando cada vez mais minorias incômodas, agitadores inúteis, que só servem para trazer angústia e infelicidade, para interromper o fluxo de distrações e prazeres momentâneos vendidos pela TV e pelo rádio, os  verdadeiros fornecedores de "felicidade". Alguma semelhança com a nossa sociedade? Não é mera coincidência.

Bem, como eu disse no primeiro parágrafo, o livro não é uma simples defesa dos livros, mas da utilidade que estes podem ter para a vida humana em geral e para a de cada indivíduo. O livro em si, não é um instrumento mágico que vai resolver todos os nossos problemas. Um leitor não é automaticamente melhor, em qualquer sentido, que um não leitor. Nisso, é  bem didática a fala do personagem Faber, definindo a importância dos livros em três fatores: o primeiro é a qualidade, medida no quanto de vida podemos encontrar em suas páginas, ou do quanto nos revela sobre nós mesmos; o segundo é o tempo de que dispomos para refletir sobre o que esse livro nos fala sobre a vida, se isso vem de encontro ao nosso modo de vê-la ou não, o que pode acrescentar e porque à minha forma de encarar a vida; e o terceiro é que tipo de atitude eu vou tomar em relação à vida após a leitura de tal livro. Didático até demais, não?

Por fim, falemos de porque cargas d'água este é um livro de amor à vida. Logo no início temos o primeiro argumento a favor dessa afirmação; o que faz Montague, o bombeiro protagonista da história, começar a sua mudança de atitude em relação à vida, foi a amizade com uma mocinha de 17 anos chamada Clarissa -  a única a olhá-lo como uma pessoa de fato, alguém importante, alguém merecedor de atenção e consideração. A única até então a lhe fazer perguntas desconcertantes, a única a ter um brilho nos olhos ao falar de simples prazeres, como um banho na chuva, ou o cheiro de uma folha, ou o orvalho na grama. A partir daí Montague procura extrair mais da vida e, ao saber da morte de Clarissa, busca algo de que sente falta e começa a procurar nos livros proibidos um sentido para a sua existência. Com Faber ele descobre que os livros não são o mais importante, mas ele só toma consciência de fato quando, depois de perseguido por aquela organização da qual participava, se perde no mato, em meio à natureza, e vê na fogueira dos rebeldes como ele, um significado diferente, que ele pode ser sinal de união, de aconchego, de calor para proteger do frio. O contato com a natureza o faz se sentir mais humano, como há tempos não se sentia em meio às três telas, o rádio concha e tudo o mais.

Fahrenheit 451 é, portanto, um livro de amor à vida, um apelo para que não sucumbamos em meio à toda parafernália tecnológica e não nos deixemos entorpecer, encontrando tempo para refletir sobre o que estamos fazendo da nossa vida, do nosso mundo, usando como referência os livros e o que eles tem a nos dizer sobre tudo. Assim, talvez um dia descubramos uma forma definitiva de acabar com as guerras, com a destruição da natureza, com a destruição da cultura e do conhecimento, enfim, com nossa autodestruição, para não precisarmos mais renascer das cinzas como já precisamos fazer em determinados momentos, seja como povo, como civilização ou como a aldeia global que pretendemos ser.

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