quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Seara Vermelha , de Jorge Amado

Concluída em 1946, é uma obra que expressa toda a crença ideológica do autor naquele momento, tanto que mais parece uma tese escrita em forma de romance. Eu confesso que pouco sabia da biografia de Jorge Amado - desconhecia sua participação no Partido Comunista, por exemplo - mas fiz uma análise prévia no meu caderninho de anotações a partir do título e das citações logo no início de Castro Alves, Engels e Luís Carlos Prestes na qual constatei o  que está bem claro: trata-se de uma história sobre trabalhadores rurais explorados, desigualdade social, esperança, luta pela liberdade e pelo ideal comunista.

Em síntese, o romance enquanto tese pode ser assim definido:

  • Prólogo ou A Seara: mostra a situação dos trabalhadores rurais, que em sua maioria trabalham metade da semana para o coronel, além de serem obrigados a comprar exclusivamente do armazém da fazenda a preços abusivos, nos quais geralmente sua dívida só cresce, aumentando a dependência do dono da fazenda e vendo cada vez mais distante o sonho de possuir a terra em que trabalha. Termina com o despejo de todos os trabalhadores por conta da venda da fazenda, dispersando os trabalhadores que tomam os mais variados rumos, como procurar trabalho em outras fazendas ou tentar a sorte em São Paulo.  

  •  Parte I - Os caminhos da fome: Narra as agruras dos retirantes que vagam pela caatinga com a esperança de encontrar um futuro melhor em São Paulo. O trajeto é duro e o sertanejo está sujeito a toda sorte de sortilégios: o impaludismo, o sol escaldante, a fome, os espinhos. Muitos morrem no caminho e isso parece rotineiro nas conversas dos sertanejos quando encontram outros retirantes. E eles enfrentam tudo isso procurando um futuro ilusório em uma São Paulo onde o trabalho é farto, onde todos conseguem um pedaço de chão e vivem bem.

  • Parte II - Os caminhos da esperança: os sertanejos inconformados com sua situação geralmente tinham dois destinos comuns - o fanatismo religioso ou o cangaço. No romance, a origem de ambos é explicada e até justificada pela situação de exploração e miséria na qual se encontram os trabalhadores. O beato e o cangaceiro da história são assassinados junto com seus poucos seguidores. Um terceiro caminho é apontado: o do comunismo, como a opção mais consciente e a única capaz de trazer a liberdade para os camponeses.

  • Epílogo - A colheita: O partido comunista começa a se organizar e seguindo a lógica do romance-tese, os camponeses (a seara que deu brotos) está quase pronta para dar frutos e conseguir alcançar a liberdade e uma vida mais justa.
 
O narrador de Seara Vermelha é um pouco ciumento com sua história. Penso que isso se deve ao fato de o livro ser, a meu ver, uma tese. Pensei até que não iria terminar a leitura desse romance, pois até Os caminhos da fome, ele parece dizer de vez em quando pra gente: olha como essa gente é miserável, coitados deles, sintam pena, compadeçam-se deles. Em um momento cheguei a pensar se estava sendo insensível à dor daquela gente, mas agora penso que era a voz do narrador que me incomodava mesmo. A história é triste, há muita dor e sofrimento, fome, doenças, miséria, mortes. Mas eu sempre acho que o narrador não deve direcionar como vou me sentir em relação aos personagens. Quando li Vidas Secas, por exemplo, a miséria era a mesma, mas em nenhum momento o narrador sugere, olhe, sinta pena dessa gente miserável. O narrador fez apenas sua parte: contou a história e deixou as conclusões para o leitor.

Eu ainda teria algumas palavrinhas sobre o romance, mas vou encurtar esse texto antes que ele se torne uma análise digna de monografia (risos). Para essa síntese farei uso de uma metáfora simples, mas que sintetiza minhas impressões sobre o livro: aqui o povo sertanejo parece aqueles protagonistas estilo Rocky Balboa; apanha até quase não se aguentar mais em pé, mas no final vence a luta - com a diferença de que no romance ele já começa apanhando  feio e no final não se vê a vitória, mas apenas o começo do que seria a virada.


Pensei que não terminaria essa leitura, mas ao final o livro acabou me pegando por ser uma história sobre esperança e sobre luta por mudanças sociais, temas que muito me aprazem.

Um comentário:

Oubí Inaê Kibuko disse...

Salve. Estou relendo este romance. O primeiro contato foi a cerca de uns 35 anos atrás, mais ou menos. Marcou na época e de certo modo, para quem como eu reside em bairros periféricos, em contato com nordestinos, incluindo o êxodo africano e haitiano, tem aspectos atuais. A fase social de Jorge Amado é admirável. Depois virou receita de bolo global.