quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Quando Nietzsche Chorou - Capítulos 21e 22; conclusão pessoal

O Capítulo 21 narra a experiência de Breuer abandonando toda aquela vida que não escolheu através da hipnose e depois voltando à consciência e à vida de antes com um certo alívio e uma aceitação do seu destino.

O capítulo 22 narra a conversa final de Breuer com Nietzsche, o choro deste último e a despedida entre eles.

Uma frase:
"Talvez sejamos todos colegas de infortúnio incapazes de enxergar a verdade do outro."
Dita por Breuer em seguida à afirmação de Nietzsche de que havia sido usado por Lou Salomé. Ilustra a ideia de que para cada acontecimento há tantas versões quantas forem as pessoas envolvidas. Será que temos a capacidade de enxergar a verdade do outro, seja ele um amigo, o ser amado, o filho? Nos esforçamos para tanto? Tema para muitas reflexões.

Voltemos ao romance.

Breuer, depois de sua experiência vivenciada através da hipnose considera-se curado. Viu toda a sua idealização do que seria a liberdade desmoronar durante sua simulação da realidade e ao voltar à consciência, desfaz-se da sua obsessão por Bertha e decide retomar a sua vida com a esposa e a profissão. Sim, Breuer cura-se de sua obsessão, mas cura-se de sua submissão ao seu tempo? Toma realmente as rédeas da sua vida?

Antes dessas conversas com Nietzsche ele não assumia suas escolhas. Por mais que tivesse cedido às pressões da sociedade e de sua cultura - numa palavra, de seu tempo - as escolhas foram dele e de mais ninguém. E disso ele se convenceu após as reflexões cunjuntas com o filósofo. Mas tomar consciência dessa escolha e assumi-la conscientemente será o mesmo que assumir as rédeas de sua vida?

A palavra chave para responder a essa pergunta no texto parece-me dever. Breuer considerava um dever para com a sociedade permanecer casado e clinicando. Fazia isso como um autômato, como uma peça de uma engrenagem maior, sem considerar a sua satisfação individual, a sua felicidade e, principalmente, sem considerar se vivia de acordo com a sua consciência - o que não lhe permitia cumprir a máxima de Nietzsche "Torna-te quem tu és". Representava um papel para agradar uma platéia. Antes era seu pai, mas com a morte dele, ficava indefinida. Talvez por isso a sensação de vazio.

Não obstante,  uma das conclusões a que chegaram os personagens é a de que não se foge a seu tempo. Breuer era médico, um dos melhores diagnosticadores de seu tempo. Era o seu ofício, o que ele sabia fazer bem e o que lhe dava um lugar no mundo. Talvez tenha percebido que ser promissor daqui pra frente não seria mais conquistar notoriedade, prêmios, reconhecimento pelos seus pares; isso ela já havia conquistado. O autor quer nos fazer acreditar que sua tarefa agora era reconciliar-se com sua própria consciência, fazer a vida normal ter seu valor no momento em que vive e não no futuro, no que se há de conquistar.

Seria isso a liberdade? Afinal, ele permaneceria na sua vida segura, com seu casamento e sua posição social. Não seria isso permanecer vivendo "perigosamente em segurança"? A consciência de suas escolhas faz dele um ser livre?

Uma coisa me frustra nesse livro: o fato de que a libertação de Breuer da sua obsessão por Bertha acontece por meio de uma experiência irreal. Isso tira o vigor da narrativa, que vinha num crescendo de diálogos cada vez mais instigantes. Simular a liberdade de suas escolhas por meio da hipnose, na qual se revelariam equivocadas, é permanecer na segurança, não tem a mesma força de frustrações reais. No entanto é a estratégia narrativa escolhida pelo autor porque dá um efeito muito usado em Holywood, pois dá ao personagem uma segunda chance de fazer as escolhas certas, tendo experimentado o fracasso de escolhas erradas.

Bom seria se todos nós pudéssemos simular com  alguma margem de realidade as conseqüências de nossas escolhas da mesma maneira. Ou não.

O livro vale pelos diálogos e só. O início é muito demorado e o final, frustrante. Mas, mesmo assim, vale a leitura.

3 comentários:

Costureira de estrelas. disse...

Carlitos, é uma amiga que manda trechos dela pra mim... N sei quem é exatamente! ='
Mas vou ver com ela e te digo, ok?
Beijos =*

dade amorim disse...

Oi, Carlos.
Boa reflexão. Você é um bom leitor, e isso é essencial pra se tornar também um bom escritor.
Muito sucesso!

serpai disse...

Siempre me es gratificante recorrer el mundo de los blogs… y encontrar algunos como el tuyo. También tengo la esperanza que alguna vez pueda verte por el mío, que también se escribe en portugués, sería como compartir esta pasión por escribir que une a tantas personas y en tantos lugares...

Sergio