sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A mansão, de Willian Faulkner - volume 3 da trilogia Snopes - Cap. 7

Ainda com narração de Ratliff, conta como Gavin Stevens o convence a acompanhá-lo na visita à Linda em Greenwich Village, NY, onde encontrarão também o seu companheiro, o escultor Kohl. O advogado convida ainda McCarron, a quem será dado conhecer a paternidade de Linda. 

O que é interessante notar neste capítulo é que, nas conversas entre Ratliff e Stevens, Greenwich Village é descrita como o lugar onde se realizam os sonhos, e que as escolhas de Linda, como o local onde decidiu morar, que é considerado um reduto de artistas e centro da contracultura norte-americana, e o próprio companheiro - Kohl é um artista e adepto das ideias comunistas -, parece querer negar o seu passado em Jefferson, uma pacata e provinciana cidade sulista. 

Um comentário de Ratliff também nos chama atenção para a intenção de Gavin de ainda tentar consertar a vida de Eula mesmo após a sua morte. Seu encontro com McCarron poderia ser mais tenso tendo em vista tratar-se daquele que engravidou aquela a quem ele dedicava a sua devoção e a abandonou para ser assumida por Flem Snopes. No entanto, ele parece agir com a naturalidade de quem apenas cumpre uma obrigação pondo McCarron em contato com Linda. McCarron é um homem rico e bem sucedido, talvez Gavin estivesse tentando deixar Linda ainda melhor sob os cuidados do seu pai. Mas o fato é que ele faz McCarron prometer não contar nada a ela, o que não impede a moça de deduzir a verdade após acompanhar o pai biológico em um passeio de carro pela cidade. Ela tenta confirmar com Gavin, que nega, mas não consegue convencê-la.

No capítulo há ainda uma menção a uma visita de Ratliff ao caminho percorrido pelos seus antepassados V. K., mas isso eu vou precisar reler para compreender porque não ficou claro.

A mansão, de Willian Faulkner - volume 3 da trilogia Snopes - Cap. 6

O primeiro capítulo da segunda parte intitulado Linda é narrado por Ratliff, que faz uma retomada da história de Eula relacionando-a à do advogado Gavin Stevens, como a história de um amor platônico e impossível por parte do segundo, já que quando conheceu Eula ela já era casada e mãe de uma criança. Ratliff narra como, mesmo assim, foi feito o pacto feito entre eles naquela idade em que, aos 19 anos, segundo ele, era "como se a gente visse finalmente a mulher deve ser nossa pelo resto da vida, só que já era tarde". 

V. K. reconta a história já narrada no livro 2 da trilogia de como Eula engravidou de McCarron, acabou esposa de Flem e foi parar em Jefferson, se tornando amante de De Spain, enquanto Stevens mantinha por ela a devoção de sempre, que Eula depois utiliza para tentar convencer o advogado a tomar sua filha Linda como esposa, para protegê-la de Flem depois de sua morte, já que planejava secretamente suicidar-se. Vale dizer que Stevens procurava salvar Linda do que ele chamava de snopismo (mau caratismo da família Snopes) desde os 14, dando-lhe livros e conversando com ela na sorveteria numa frequência de 2 vezes por semana. Seu plano era mandar Linda para estudar em outra cidade, onde poderia conhecer um bom moço com quem pudesse se casar e se livrar de vez da influência de Flem. No entanto, Flem tenta de todas as formas segurar Linda, já que esperava por meio dela receber a herança do avô Will Varner. A situação só é contornada já perto do suicídio de Eula, quando Linda concorda em assinar um testamento deixando para Flem o que viesse a receber de Will Varner. 

Com a morte de Eula, contudo, outras negociações se dão, de modo que Stevens consegue proteger a herança de Linda de Flem, que por sua vez, consegue a presidência do Banco e se apossa da casa de De Spain, que concordou em sair da cidade para não mais voltar. Por fim, Gavin toma todas as providências para o funeral, como se fosse ele o próprio viúvo querendo prestar as homenagens à esposa morta, incluindo aí uma lápide encomendada da Itália, que deveria reproduzir a face da finada. Linda vai finalmente para Nova York onde, já nos é adiantado, conhecerá o marido judeu, a quem acompanhará na guerra onde ficará viúva e surda antes de voltar a Jefferson.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A mansão, de Willian Faulkner. Volume 3 da Trilogia Snopes - Parte 1


O livro é composto por três partes ou livros. O primeiro trata de Mink, voltando aos dias que precederam o assassinato de Houston cometido por ele, passando por relatar como enfrenta os anos de prisão e de como Flem trama para que ele passe mais 20 anos preso com a ajuda de Montgomery Ward. Termina com ele saindo da prisão totalmente desconectado com o mundo que encontra fora dela. 

O livro dois trata da volta de Linda Snopes, que volta à cidade após perder o marido e a audição na guerra. Como ainda estou começando a leitura não tenho como resumir ou comentar, mas pelo lido até aqui, presumo que terá destaque o promotor Gavins e seu sobrinho Chick, agora um estudante de Harvard. 

Já o livro três vai tratar de Flem - provavelmente sua decadência e morte, a julgar pelos comentários da orelha do livro - que achei bem pobre aliás. 

O começo deste segundo livro volta a retratar Eula como um fenômeno da natureza, como uma personagem trágica que tem seu destino selado por sua beleza e pela volúpia que despertava nos homens. No entanto ela não é descrita como uma vítima, é mais descrita pelos narradores como uma ameaça aos homens e à paz de Frenchmans Bend e, depois, de Jefferson. Ao que parece, Linda herdará essa maldição da mãe, pois Chick é descrito como um homem que quer ser estrangulado, ter o direito de ser envolvido nesta maldição de Linda, que é comparada a Lilith mitológica.

Como iniciei as anotações já a partir da leitura do livro dois, quando for fazer a conclusão ou resenha das minhas impressões sobre o livro como um todo falo um pouco mais da parte dedicada a Mink.

Até breve!



quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Fahrenheit 451, de Ray Bradbury

Então, pessoas, tô devendo aqui minhas anotações sobre vários livros. Vou tentar atualizar aqui aos pouquinhos, começando por esse excelente livro, que li em janeiro do ano passado.


Este é certamente um dos cinco melhores livros que já li. Não que eu tenha lido muitos, e também tenho problemas com classificações, de modo que seria difícil dizer a posição exata dele na minha lista de melhores livros. Mas se esta lista existisse, este livro estaria certamente entre os cinco melhores.

Primeiro pensei no livro de Bradbury como uma declaração de amor aos livros, pois ele assim me foi apresentado e era muito cômodo encaixar a minha apreciação dele à que já me tinha sido feita por um professor da faculdade. Entretanto, lendo e relendo, pensando e repensando, vi que ele é muito mais: é um livro de amor à vida, de uma esperança que, embora utópica, não chega a ser pueril; é antes uma esperança serena num futuro em que os homens descubram, olhando para o passado, o quanto foram tolos ao usar toda a riqueza que foram capazes de criar - conhecimento, cultura, tecnologia - para se autodestruir e, por isso,  ter que se reinventar, várias e várias vezes ao longo da história.

Vamos tentar fazer esse ponto de vista ficar mais claro. Comecemos pelo papel do fogo no romance. Montag, nosso personagem principal, é um bombeiro, mas não no sentido que hoje conhecemos, daquele que apaga incêndios; ele é a espécie de bombeiro que usa o fogo como instrumento de controle, queimando livros. Vejam só a ironia: uma das maiores revoluções tecnológicas da humanidade foi o domínio do fogo. A partir disso, pudemos nos comunicar, cozinhar alimentos, otimizar o transporte, nos guiar na escuridão e um sem fim de descobertas tecnológicas que nos permitiram evoluir tecnologica e culturalmente durante séculos.

A metáfora do fogo queimando livros como um espetáculo - mais ainda que como instrumento de controle das consciências, como várias vezes ocorreu ao longo da história -, é de uma importância crucial para a compreensão do romance. Ela evidencia como a nossa sociedade supervaloriza a tecnologia, que simplifica e agiliza nossas vidas, em detrimento do pensamento, da cultura. Vivemos numa época em que predomina o hedonismo, a busca incessante por prazer e distração ininterruptas, o que as tecnologias tem a oferecer em abundância. Na época em que o livro foi escrito, essas tecnologias eram principalmente a televisão e o rádio, mas hoje podemos incluir aí a internet, a grande revolução na comunicação das últimas décadas. Nesse contexto, o espaço para pensar, refletir sobre a ação, fica extremamente reduzido, de modo que os livros e os seus leitores, os seres pensantes e questionadores, na ficção de Bradbury,  vão se tornando cada vez mais minorias incômodas, agitadores inúteis, que só servem para trazer angústia e infelicidade, para interromper o fluxo de distrações e prazeres momentâneos vendidos pela TV e pelo rádio, os  verdadeiros fornecedores de "felicidade". Alguma semelhança com a nossa sociedade? Não é mera coincidência.

Bem, como eu disse no primeiro parágrafo, o livro não é uma simples defesa dos livros, mas da utilidade que estes podem ter para a vida humana em geral e para a de cada indivíduo. O livro em si, não é um instrumento mágico que vai resolver todos os nossos problemas. Um leitor não é automaticamente melhor, em qualquer sentido, que um não leitor. Nisso, é  bem didática a fala do personagem Faber, definindo a importância dos livros em três fatores: o primeiro é a qualidade, medida no quanto de vida podemos encontrar em suas páginas, ou do quanto nos revela sobre nós mesmos; o segundo é o tempo de que dispomos para refletir sobre o que esse livro nos fala sobre a vida, se isso vem de encontro ao nosso modo de vê-la ou não, o que pode acrescentar e porque à minha forma de encarar a vida; e o terceiro é que tipo de atitude eu vou tomar em relação à vida após a leitura de tal livro. Didático até demais, não?

Por fim, falemos de porque cargas d'água este é um livro de amor à vida. Logo no início temos o primeiro argumento a favor dessa afirmação; o que faz Montague, o bombeiro protagonista da história, começar a sua mudança de atitude em relação à vida, foi a amizade com uma mocinha de 17 anos chamada Clarissa -  a única a olhá-lo como uma pessoa de fato, alguém importante, alguém merecedor de atenção e consideração. A única até então a lhe fazer perguntas desconcertantes, a única a ter um brilho nos olhos ao falar de simples prazeres, como um banho na chuva, ou o cheiro de uma folha, ou o orvalho na grama. A partir daí Montague procura extrair mais da vida e, ao saber da morte de Clarissa, busca algo de que sente falta e começa a procurar nos livros proibidos um sentido para a sua existência. Com Faber ele descobre que os livros não são o mais importante, mas ele só toma consciência de fato quando, depois de perseguido por aquela organização da qual participava, se perde no mato, em meio à natureza, e vê na fogueira dos rebeldes como ele, um significado diferente, que ele pode ser sinal de união, de aconchego, de calor para proteger do frio. O contato com a natureza o faz se sentir mais humano, como há tempos não se sentia em meio às três telas, o rádio concha e tudo o mais.

Fahrenheit 451 é, portanto, um livro de amor à vida, um apelo para que não sucumbamos em meio à toda parafernália tecnológica e não nos deixemos entorpecer, encontrando tempo para refletir sobre o que estamos fazendo da nossa vida, do nosso mundo, usando como referência os livros e o que eles tem a nos dizer sobre tudo. Assim, talvez um dia descubramos uma forma definitiva de acabar com as guerras, com a destruição da natureza, com a destruição da cultura e do conhecimento, enfim, com nossa autodestruição, para não precisarmos mais renascer das cinzas como já precisamos fazer em determinados momentos, seja como povo, como civilização ou como a aldeia global que pretendemos ser.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Revolução Francesa vol. 1 (O povo e o Rei) e 2 (Às armas, cidadãos), de Max Gallo


Comprei o volume I do livro do Max Gallo por pura curiosidade, ao passar pela livraria Saraiva. Tinha decidido ler mais não-ficção esse ano e a Revolução Francesa parecia um tema bastante interessante para começar. Mas aí, ao abrir o livro pra ver do que se tratava, não resisti: o estilo é narrativo, parece mais um romance ou uma reportagem que um livro de história, embora trate de fatos rigorosamente históricos. Não demorei nada a me decidir por ele.

E a leitura não decepcionou. No início da leitura senti que o narrador parece muito condescendente com a figura do rei D. Luis XVI, mas ao fim do primeiro volume concluí que seu papel foi somente o de nos conduzir junto com o rei pelas suas decisões políticas e as consequencias de cada uma delas. Max Gallo nos desenha um Luis XVI que buscava ser virtuoso e também buscava agradar ao povo, mas tudo dentro dos limites de uma cultura que crê no direito divino da realeza. Contudo, era um rei suscetível, muito influenciado por sua esposa e seus ministros, e muito lento nas decisões. O reinado de Luis XVI é dramático, é o início da narrativa ainda na sua adolescência tende a nos mostrar como a coroa lhe foi mais uma maldição que uma benção, mais uma imposição de sua classe que a realização de um desejo, a conquista de algo a que se ambicionava. Interessante notar nesse volume a sua relação com o povo. Do amor ao ódio num período curtíssimo de tempo, embora os primeiros atos desse drama indicassem que a imagem do rei dificilmente poderia ser mudada frente ao povo. Derrubou-se a Bastilha, odiava-se a rainha - a "estrangeira devassa"-, os sucessivos ministros, mas a adoração ao rei persistia, apesar de tudo.

A criação dos clubes - principalmente dos jacobinos e girondinos -, a força que estes foram adquirindo, foram minando com uma rapidez impressionante o poder e o prestígio do rei. A descoberta de sua conspiração em conjunto com os emigrados e a sua tentativa de fuga para o estrangeiro frustrada em Varennes era a munição que os "defensores do povo e da liberdade" precisavam; estava selado o destino do rei e da revolução.

O primeiro volume é feito com uma narração vigorosa, de tirar o fôlego, sendo os acontecimentos encadeados de maneira a envolver o leitor por horas de leitura sem cansar.

Infelizmente não tive a mesma impressão com o segundo volume. Talvez seja apenas uma impressão pessoal em razão da repetição demasiada, mas necessária, das condenações em massa  à morte na guilhotina durante a vigência do terror jacobino, sob a liderança de Robespierre, e depois do terror branco, empreendido por aqueles que o condenaram à guilhotina de que tanto se serviu. Penso que me cansaram também as muitas intrigas nas quais se envolveram os republicanos na busca pelo poder e não o estilo do autor em si. No entanto, quando aparece a figura de Napoleão Bonaparte, a narrativa ganha novamente força e agilidade, tornando a leitura interessante.

Indico a leitura dos dois volumes, principalmente a leitores não habituados à livros de história convencionais, pois, embora estejam ausentes no texto a reflexão sobre a profundeza das mudanças ocorridas no período, a apresentação no gênero narrativo desperta o interesse e a própria revolução é um tema empolgante.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Revolta, de Márcio Souza

Ao contrário do que acontece nos dois primeiros volumes da tetralogia, o narrador-personagem Maurício Vilaça não é alguém que está diretamente envolvido nos assuntos políticos do Grão-Pará, sequer acredita que a província terá sucesso com a revolta que depois seria chamada de cabanagem. Ele foi desenvolvido na forma de diário, como os anteriores, e creio que Márcio Souza poderia ter consumido menos páginas, ou até nenhuma, com as aventuras sexuais do protagonista. Por vezes parece mais um livro pornográfico que ficção histórica. Aparte isso, o livro mostra como Belém se tornou um caos depois da depoisição e morte do governador Lobo de Sousa, como a turba de negros e tapuias usou as armas para se vingar dos brancos, saqueando suas casas, matando, violentando suas esposas e filhas. Mostra toda a revolta de um povo que permaneceu anos subjugado e padecia com a miséria, fome e humilhação diárias. Não foi muito diferente do que aconteceu na França revolucionária, com a diferença de que esta tinha um projeto político, o que faltou aos cabanos. Em contraste a esse clima de vingança, o autor mostra o povoado do Cacoalhinho, onde um grupo de desterrados se organizou em volta da cabocla Elvira, sua líder informal, produzindo seu próprio sustento e vivendo alheio ao alvoroço da Belém revolucionária. Pulando as cenas de sexo, vale a leitura. A não ser que elas também interessem ao possível leitor.

PS: Fico devendo anotações dos três anteriores a esse: Farenheit 451; Desordem ; e Revolução Francesa - vol. 1 - O povo e o rei. Pretendo postar até semana que vem. Até breve!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Seara Vermelha , de Jorge Amado

Concluída em 1946, é uma obra que expressa toda a crença ideológica do autor naquele momento, tanto que mais parece uma tese escrita em forma de romance. Eu confesso que pouco sabia da biografia de Jorge Amado - desconhecia sua participação no Partido Comunista, por exemplo - mas fiz uma análise prévia no meu caderninho de anotações a partir do título e das citações logo no início de Castro Alves, Engels e Luís Carlos Prestes na qual constatei o  que está bem claro: trata-se de uma história sobre trabalhadores rurais explorados, desigualdade social, esperança, luta pela liberdade e pelo ideal comunista.

Em síntese, o romance enquanto tese pode ser assim definido:

  • Prólogo ou A Seara: mostra a situação dos trabalhadores rurais, que em sua maioria trabalham metade da semana para o coronel, além de serem obrigados a comprar exclusivamente do armazém da fazenda a preços abusivos, nos quais geralmente sua dívida só cresce, aumentando a dependência do dono da fazenda e vendo cada vez mais distante o sonho de possuir a terra em que trabalha. Termina com o despejo de todos os trabalhadores por conta da venda da fazenda, dispersando os trabalhadores que tomam os mais variados rumos, como procurar trabalho em outras fazendas ou tentar a sorte em São Paulo.  

  •  Parte I - Os caminhos da fome: Narra as agruras dos retirantes que vagam pela caatinga com a esperança de encontrar um futuro melhor em São Paulo. O trajeto é duro e o sertanejo está sujeito a toda sorte de sortilégios: o impaludismo, o sol escaldante, a fome, os espinhos. Muitos morrem no caminho e isso parece rotineiro nas conversas dos sertanejos quando encontram outros retirantes. E eles enfrentam tudo isso procurando um futuro ilusório em uma São Paulo onde o trabalho é farto, onde todos conseguem um pedaço de chão e vivem bem.

  • Parte II - Os caminhos da esperança: os sertanejos inconformados com sua situação geralmente tinham dois destinos comuns - o fanatismo religioso ou o cangaço. No romance, a origem de ambos é explicada e até justificada pela situação de exploração e miséria na qual se encontram os trabalhadores. O beato e o cangaceiro da história são assassinados junto com seus poucos seguidores. Um terceiro caminho é apontado: o do comunismo, como a opção mais consciente e a única capaz de trazer a liberdade para os camponeses.

  • Epílogo - A colheita: O partido comunista começa a se organizar e seguindo a lógica do romance-tese, os camponeses (a seara que deu brotos) está quase pronta para dar frutos e conseguir alcançar a liberdade e uma vida mais justa.
 
O narrador de Seara Vermelha é um pouco ciumento com sua história. Penso que isso se deve ao fato de o livro ser, a meu ver, uma tese. Pensei até que não iria terminar a leitura desse romance, pois até Os caminhos da fome, ele parece dizer de vez em quando pra gente: olha como essa gente é miserável, coitados deles, sintam pena, compadeçam-se deles. Em um momento cheguei a pensar se estava sendo insensível à dor daquela gente, mas agora penso que era a voz do narrador que me incomodava mesmo. A história é triste, há muita dor e sofrimento, fome, doenças, miséria, mortes. Mas eu sempre acho que o narrador não deve direcionar como vou me sentir em relação aos personagens. Quando li Vidas Secas, por exemplo, a miséria era a mesma, mas em nenhum momento o narrador sugere, olhe, sinta pena dessa gente miserável. O narrador fez apenas sua parte: contou a história e deixou as conclusões para o leitor.

Eu ainda teria algumas palavrinhas sobre o romance, mas vou encurtar esse texto antes que ele se torne uma análise digna de monografia (risos). Para essa síntese farei uso de uma metáfora simples, mas que sintetiza minhas impressões sobre o livro: aqui o povo sertanejo parece aqueles protagonistas estilo Rocky Balboa; apanha até quase não se aguentar mais em pé, mas no final vence a luta - com a diferença de que no romance ele já começa apanhando  feio e no final não se vê a vitória, mas apenas o começo do que seria a virada.


Pensei que não terminaria essa leitura, mas ao final o livro acabou me pegando por ser uma história sobre esperança e sobre luta por mudanças sociais, temas que muito me aprazem.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Quando Nietzsche Chorou - Capítulos 21e 22; conclusão pessoal

O Capítulo 21 narra a experiência de Breuer abandonando toda aquela vida que não escolheu através da hipnose e depois voltando à consciência e à vida de antes com um certo alívio e uma aceitação do seu destino.

O capítulo 22 narra a conversa final de Breuer com Nietzsche, o choro deste último e a despedida entre eles.

Uma frase:
"Talvez sejamos todos colegas de infortúnio incapazes de enxergar a verdade do outro."
Dita por Breuer em seguida à afirmação de Nietzsche de que havia sido usado por Lou Salomé. Ilustra a ideia de que para cada acontecimento há tantas versões quantas forem as pessoas envolvidas. Será que temos a capacidade de enxergar a verdade do outro, seja ele um amigo, o ser amado, o filho? Nos esforçamos para tanto? Tema para muitas reflexões.

Voltemos ao romance.

Breuer, depois de sua experiência vivenciada através da hipnose considera-se curado. Viu toda a sua idealização do que seria a liberdade desmoronar durante sua simulação da realidade e ao voltar à consciência, desfaz-se da sua obsessão por Bertha e decide retomar a sua vida com a esposa e a profissão. Sim, Breuer cura-se de sua obsessão, mas cura-se de sua submissão ao seu tempo? Toma realmente as rédeas da sua vida?

Antes dessas conversas com Nietzsche ele não assumia suas escolhas. Por mais que tivesse cedido às pressões da sociedade e de sua cultura - numa palavra, de seu tempo - as escolhas foram dele e de mais ninguém. E disso ele se convenceu após as reflexões cunjuntas com o filósofo. Mas tomar consciência dessa escolha e assumi-la conscientemente será o mesmo que assumir as rédeas de sua vida?

A palavra chave para responder a essa pergunta no texto parece-me dever. Breuer considerava um dever para com a sociedade permanecer casado e clinicando. Fazia isso como um autômato, como uma peça de uma engrenagem maior, sem considerar a sua satisfação individual, a sua felicidade e, principalmente, sem considerar se vivia de acordo com a sua consciência - o que não lhe permitia cumprir a máxima de Nietzsche "Torna-te quem tu és". Representava um papel para agradar uma platéia. Antes era seu pai, mas com a morte dele, ficava indefinida. Talvez por isso a sensação de vazio.

Não obstante,  uma das conclusões a que chegaram os personagens é a de que não se foge a seu tempo. Breuer era médico, um dos melhores diagnosticadores de seu tempo. Era o seu ofício, o que ele sabia fazer bem e o que lhe dava um lugar no mundo. Talvez tenha percebido que ser promissor daqui pra frente não seria mais conquistar notoriedade, prêmios, reconhecimento pelos seus pares; isso ela já havia conquistado. O autor quer nos fazer acreditar que sua tarefa agora era reconciliar-se com sua própria consciência, fazer a vida normal ter seu valor no momento em que vive e não no futuro, no que se há de conquistar.

Seria isso a liberdade? Afinal, ele permaneceria na sua vida segura, com seu casamento e sua posição social. Não seria isso permanecer vivendo "perigosamente em segurança"? A consciência de suas escolhas faz dele um ser livre?

Uma coisa me frustra nesse livro: o fato de que a libertação de Breuer da sua obsessão por Bertha acontece por meio de uma experiência irreal. Isso tira o vigor da narrativa, que vinha num crescendo de diálogos cada vez mais instigantes. Simular a liberdade de suas escolhas por meio da hipnose, na qual se revelariam equivocadas, é permanecer na segurança, não tem a mesma força de frustrações reais. No entanto é a estratégia narrativa escolhida pelo autor porque dá um efeito muito usado em Holywood, pois dá ao personagem uma segunda chance de fazer as escolhas certas, tendo experimentado o fracasso de escolhas erradas.

Bom seria se todos nós pudéssemos simular com  alguma margem de realidade as conseqüências de nossas escolhas da mesma maneira. Ou não.

O livro vale pelos diálogos e só. O início é muito demorado e o final, frustrante. Mas, mesmo assim, vale a leitura.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Quando Nietzsche Chorou - Capítulo 20

Em nova conversa, Nietzsche ajuda finalmente Breuer a enxergar nitidamente além de sua obsessão por Bertha. Em síntese: medo da morte, desejo de conforto e de agradar a platéia (a sociedade).

Chama-me a atenção agora como o pai, no microcosmo da família, pode significar os olhos da sociedade e de um "tempo", de um contexto histórico-social vigiando sobre o indivíduo. Breuer não escolheu ser médico diagnosticador, casar-se, ter filhos; foi escolhido para exercer esse papel pelo seu pai - sua platéia particular a quem ele reportava todas as suas conquistas - e pela sociedade, que lhe impôs o caminho a ser trilhado.

A seguir Nietzsche apresenta ao seu interlocutor o conceito do eterno retorno. Suportaria ele (suportaríamos nós) viver(mos) eternamente o que se vive no momento presente?

A questão é: nossa principal platéia individual deve ser a nossa consciência, a única que merece nossos maiores esforços para ser satisfeita. Sob esse prisma, o eterno retorno se torna um conceito prático, simples.